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10.06.2008

Como o perfeccionismo pode sacrificar a produtividade e os relacionamentos profissionais.

Por: Lucas Toyama

Sentimento de insatisfação e angústia, de que o realizado nunca está bom o suficiente. Para alguns, ao contrário de ser um dos caminhos que levam ao sucesso, a perfeição pode atuar como a mãe da improdutividade. E, não raro, os altos padrões de qualidade impostos levam ao não cumprimento dos prazos. Para outros, pode ser sinônimo de ter critérios, o que se encaixa no perfil de atividades que exigem
tal característica. Afinal, como trabalhar com profissionais perfeccionistas?

Lourdes Scalabrin, diretora executiva da S&L Consulting, confessa ser orientada pela qualidade, mas que aprendeu a lidar com isso para cumprir seus prazos sem ter que estender seu horário de trabalho. "Antes, isso me causava labirintite e estresse, pois eu mesma refazia todos os trabalhos que chegavam até mim sem terem cumprido meus padrões de qualidade", lembra a diretora. Há três anos, Lourdes buscou ajuda em um ciclo de estudos desenvolvido por um grupo de aproximadamente 30 pessoas. "Participo todos os domingos, quando escolhemos um tema para trabalhar, como valores humanos, relacionamentos interpessoais", conta Lourdes.

Aos poucos, "com a discussão de temas como tolerância, paciência, ética, aprendi a dar o melhor de mim e me desapegar das coisas", ressalta a diretora. Hoje, se os trabalhos que chegam até Lourdes não têm qualidade nas informações ou boa apresentação, ela solicita que os próprios autores os refaçam. "Isso contribui para o crescimento da equipe", complementa a diretora.

Para Rogerio Martins, da Persona Consultoria & Eventos, o fato de algumas pessoas serem mais detalhistas, criteriosas e minuciosas em tudo que fazem pode ser muito positivo. "O problema é quando a pessoa perde tempo com os detalhes, quando cria burocracia para realizar atividades simples ou quando a necessidade de ser perfeito é maior do que o resultado", explica Martins. O ditado, aqui, cabe perfeitamente: o ótimo muitas vezes é, sim, inimigo do bom.

Outro problema é que o perfeccionista, em geral, gosta de fazer por ele mesmo, pois acredita que somente ele é capaz de fazer do jeito certo. "Ele tem a tendência de centralizar, pois não confia que outros profissionais possam fazer tão bem feito quanto ele", avalia Martins. Delegar, portanto, torna-se tarefa quase impossível.

Para Lourdes, um gestor com essas características tende a não contribuir com o crescimento de sua equipe. "Esse gestor não pede que refaçam o trabalho, ele mesmo o refaz, pois não tem muita paciência para ensinar, o que prejudica o desenvolvimento de seu grupo", avalia. "A pessoa cria padrões tão altos de exigência e perfeccionismo que passa a exigir de outras pessoas esses padrões e, ao invés de elogiar o trabalho, ele encontra um defeito", complementa a diretora.

Um solitário?

Essa intransigência com o outro muitas vezes leva a pessoa ao isolamento. Para o médico psiquiatra Paulo Gaudêncio, esse afastamento pode estar relacionado ao fato de o perfeccionismo não ser sinônimo de qualidade, mas de insatisfação e inferioridade. "Em geral, uma pessoa perfeccionista produz bastante, mas nunca se dá uma nota alta, pois se sente inferior diante de seu nível de expectativa muito elevado", afirma.

Sob essa perspectiva, cabe ao líder colocar na balança os prós (produtividade e entrega de alta performance) e os contras (problemas de relacionamento e nível de exigência por vezes exagerado) de se contar com um profissional com essas características na equipe.

Historicamente, alguns exemplos colocam perfeccionismo e qualidade como sinônimos, como no caso dos pintores Michelangelo e Picasso. Gaudêncio explica que o perfeccionista trabalha melhor em atividades que não exigem a interação em grupo, ou seja, que são mais individuais. Como as artes, nesse caso.

O mundo corporativo, no entanto, também cede espaço para aqueles que não aceitam nada menos que a perfeição. "Um profissional com esse perfil pode ser incrivelmente bem aproveitado em atividades mais operacionais", ressalta o psiquiatra, que, todavia, faz uma ressalva: "como líder de equipe é o fim do mundo, pois ele é insatisfeito tanto com a sua produção como com a de seu time".

Cada macaco no seu galho...

Se um gestor tem um perfeccionista em sua equipe, nem tudo está perdido. É possível utilizar o potencial de pessoas com esse perfil de forma produtiva, direcionando-as para atividades que requerem este atributo. "Mas é fundamental o gestor colocar metas claras para a execução da tarefa, caso contrário, a pessoa poderá ficar tão
entretida nos detalhes que poderá comprometer o resultado
", avalia Martins.

Já Lourdes alerta que nem todo profissional perfeccionista é detalhista, qualidade esta imprescindível para atividades como as relacionadas à área financeira e auditoria. Para a diretora, o primeiro passo é não impor, e trabalhar com objetivos claros e metas, atendendo prazos em dia. "Se ele detectar um profissional que realiza um ótimo trabalho, mas fora do prazo, deve fazê-lo entender, conscientizá-lo de que ele está comprometendo o seu trabalho", alerta.

O gestor deve, assim, acompanhar e trabalhar esse lado comportamental de seu funcionário, pois "o perfeccionismo é uma característica profissional que nem sempre deve ser descartada", ressalta a diretora. O que o executivo com perfil perfeccionista precisa, sugere Lourdes, é de um coaching. Ou a empresa pode indicar "um tratamento terapêutico, que o ajudará a buscar a excelência em seus trabalhos, e não mais a perfeição", sugere Paulo Gaudêncio.
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