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11.03.2009

Geração desempregada

Por: Walcyr Carrasco

Tenho uma amiga bem preparada, inteligente e fluente em vários idiomas. Dirigiu uma grande empresa, em um cargo logo abaixo do de presidente. Ia ao Oriente tratar de importações. Lançou produtos lembrados e copiados até hoje. Há anos está fora do mercado de trabalho. Quando a empresa foi vendida e ela saiu, parecia fácil encontrar novo posto.

Passaram-se os anos, o dinheiro acabou. Aceitou dirigir uma empresa na área de decoração, a qual, por falta de grana, pagou o segundo mês com um sofá e duas poltronas. Desde então faz pequenos trabalhos, terceirizada, sempre à espera de uma oportunidade que não chega. Outra, doutora e responsável por pesquisas sérias na área da biologia, perdeu a cadeira em uma universidade após quase trinta anos de dedicação. Passou os últimos três com o dinheiro recebido. E mais nada! Voltou para a casa da mãe, já idosa, para poder alugar a casa onde morava. Recentemente, peguei um táxi especial. O motorista, um homem de maneiras refinadas (aliás, muito mais do que as minhas), contou que fora diretor-presidente de uma empresa na área de componentes elétricos. Após uma fusão, montou a própria. Não deu certo e fechou.

- "Nunca mais achei emprego! O jeito foi comprar o táxi, pelo menos para comer" - contou.

Era o tipo de executivo cuja casa eu poderia ter frequentado anteriormente, que serviria vinho importado e cuja mulher usaria roupas de grife. Após certa idade, com raras exceções, as pessoas são descartadas. Há situações tremendas: nos meus anos de jornalismo conheci um diretor de arte talentoso, que não se adaptou de imediato aos computadores. Perdeu o emprego. Da última vez que tentei ajudá-lo, ele se candidatava a uma vaga de porteiro de prédio.

Às vezes ouço falar de alguém: um ex-grande jornalista hoje escreve como free-lancer, sem renda fixa; um alto executivo põe comida na mesa graças a aluguéis baixíssimos, dos poucos imóveis que restaram; a família que a cada três anos vende a casa onde mora para quitar dívidas e com a diferença compra uma menor; sem falar dos que, aterrorizados pela situação, enfartaram.
Um ritual hipócrita cerca as dispensas, como se houvesse vantagem para o desempregado em explicações do tipo: ‘Estamos reestruturando...’. Isso quer dizer que um bando vai para a rua. Ou: ‘Você vai ter a chance de buscar novas oportunidades, se renovar’. Como se alguém ambicionasse chances não remuneradas! E ainda tivesse de sorrir e agradecer a dispensa. Ah, como dói!
Meus amigos têm mais de 50. Boa parte dessa geração ficou desempregada. Vejo outra leva chegando, de quem passou dos 40 e também passou a ser considerado velho. É óbvio que os jovens merecem oportunidades. Mas quem acumulou experiência, conhecimento, não? Uma sociedade incapaz de aproveitar experiências profissionais sólidas é no mínimo cruel. Pessoas não podem ser descartáveis. E não passa um dia sem que um amigo me procure, pedindo ajuda. Mas são tantos, meu Deus! Em que porta bater?

Tive chefes maravilhosos - um deles manteve meu salário quando vim para a televisão, até que eu me sentisse seguro no novo caminho. Seu Ivan, já falecido, era generoso. Mas já fui demitido de surpresa, com a desculpa de que era preciso renovar. E eu não tinha nem 40 anos! É desesperador vender o carro para comer, buscar uma moradia mais barata e viver em agonia pelo mês que vem. Ninguém merece. Principalmente quem sempre deu o melhor de si e tem como única nódoa profissional o fato de já não ser tão jovem.

8.03.2009

Textualizações do político na mídia: uma leitura discursiva da "Revista Veja"

Autora: Mariucha M. Néri

RESUMO
Talvez uma das linguagens mais interessantes, a imagem torna-se hoje não só algo atrativo, mas também fundamental para a manutenção das diversas mídias. Seja televisiva, impressa ou até mesmo a Internet, estes meios utilizam-se de imagens para abordar vários assuntos, ilustrando, assim, as reportagens que são veiculadas. Ao olhar do Jornalismo, a imagem passou a “atrair” mais o leitor e, junto à ampliação da publicidade – este muito ligado a lucratividade do veículo de comunicação – tornou-se um ‘item’ essencial e indissociável. No que diz respeito à memória de uma coletividade e à memória discursiva, conceitos, fundados na Lingüística, mais especificamente na Análise do Discurso de linha francesa, a imagem funciona como uma espécie de ‘estampa’ dos discursos. Os vários discursos que circulam hoje na sociedade estão intimamente ligados a diversas formações imaginárias e, claro, discursivas, sendo que estas chegam a permitir a passagem de situações empíricas, transformando-as nos chamados acontecimentos discursivos que, segundo Pêcheux (1990) “é o ponto de encontro de uma atualidade e uma memória; é ele que desestabiliza o que está posto e provoca um novo vir a ser, reorganizando o espaço da memória que ele convoca.” As imagens, na verdade, conseguem pôr em circulação os diferentes discursos, suscitando frequentemente “novos” acontecimentos discursivos. Neste ponto, a imagem torna-se um álibi tanto para a área de Jornalismo, quanto para o fenômeno da Memória Discursiva. Aponta-se essa relevância para ambas devido ao fato de que a reincidência de fato, ou um acontecimento discursivo, permite novas discussões a respeito de um mesmo assunto ou tema. Para exemplificar o que foi dito, serão utilizadas imagens retiradas do corpus de pesquisa de mestrado da autora deste resumo. O referido projeto possui como corpus de base arquivística, reportagens retiradas da revista citada, durante o período de junho de 2005 a abril de 2006, e que se referem ao período de queda do ex-ministro da fazenda do governo Lula, Antonio Palocci. Acredita-se que a mídia – que, no caso do trabalho citado é exemplificada pela revista Veja – auxilie na construção dos acontecimentos discursivos como, por exemplo, a “Queda do Ministro Palocci”. Junto ao recurso da imagem, a mídia acaba se inscrevendo em um denominado tipo de discurso (panfletário), que circula não apenas em piadas, charges, mas também nas fotomontagens, caricaturas políticas e até reportagens. A “criação” de um acontecimento discursivo, amparado por fotomontagens, entre outros recursos, mantém aquele determinado assunto na mídia, contribuindo, inclusive, por aumentar a vendagem dos meios de comunicação. Da mesma forma, a manutenção de um acontecimento discursivo permite que este permaneça na memória da sociedade, suscitando discussões, novos rumos e até soluções para o determinado fato, funcionando realmente como um operador da memória social. Por isso dizer que a imagem chega a se tornar espelho da sociedade, por conseguir refletir com fidelidade os fatos e acontecimentos que ilustram o cotidiano do homem.

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