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9.10.2013

Hotelaria disputa funcionários com banco e shopping

..:: Por: Janes Rocha | Valor Online

Os grandes eventos que o Brasil vai sediar, como a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude Católica neste ano, e a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 expõem a carência de profissionais qualificados na hotelaria. Uma pesquisa recente da BSH Travel Research apontou que a hotelaria brasileira prepara investimentos de R$ 7,3 bilhões até 2014, totalizando 198 novos empreendimentos que vão gerar 31 mil postos de trabalho.

No entanto, as empresas já encontram dificuldade em completar seus quadros. Além da baixa oferta de profissionais qualificados e a forte competição entre empresas do setor, há também a concorrência de empresas de outras atividades. Grandes condomínios, shopping centers, hospitais e os departamentos de clientes de alta renda dos bancos têm entrado na disputa por profissionais de hotelaria.

Nesse cenário, a rotatividade de trabalhadores é grande. O Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) estima, a partir dos dados apenas das redes associadas, que a rotatividade do setor hoteleiro varia entre 30% e 50%, com uma média de 38%. As áreas operacionais são as mais atingidas, especialmente em cargos que exigem menor qualificação como governança, manutenção, alimentos e bebidas.

Os dados preocupam o governo, que lançou em 2011 o Pronatec Turismo, programa que visa aumentar a oferta de cursos profissionalizantes para atividades ligadas ao setor. O Pronatec tem como meta oferecer, até 2014, 240 mil vagas para 54 cursos profissionalizantes, gratuitos, integralmente presenciais com uma carga horária mínima de 16 horas-aula. Os cursos são ministrados nas unidades das escolas do chamado Sistema "S" - Sesc, Senai, Senac e Sesi -, institutos federais e estaduais de educação em 120 municípios.

Segundo a assessoria do Ministério do Turismo, o programa encerrou 2012 com 57.219 qualificados e/ou em processo de qualificação. A meta para 2013 é 114 mil e para 2014, 68.781.

A falta de profissionais qualificados não é por falta de cursos. Dados do Ministério da Educação disponíveis no sistema e-Mec apontam a existência de 110 cursos superiores de hotelaria ativos. Quase todos esses cursos são presenciais, alguns a distância, e estão disponíveis em escolas públicas e privadas de todo país, garantindo graduação de bacharéis e tecnólogos. Além disso, as grandes cadeias de hotéis como Accor e Blue Tree mantêm amplos programas internos de formação e qualificação.

"O apagão de mão de obra é porque não se conseguiu seduzir os jovens para o setor hoteleiro", opina Mariana Aldrigui, bacharel em turismo e diretora do curso de Lazer e Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP).

Os jovens que estão por decidir que rumo seguir mal conhecem as possibilidades de carreira no setor hoteleiro e a imagem que têm, diz Mariana, é de um ramo no qual se trabalha muito e se ganha pouco. "Eles não conhecem a demanda nova por serviços de hospitalidade que vêm de diversas áreas, de farmácias a livrarias, de grandes centros hospitalares à gastronomia."

Geraldo Castelli, fundador e presidente da Castelli Escola Superior de Hotelaria (ESH), acrescenta a responsabilidade de todos - escolas e empresas - na carência de profissionais. "Uma grande questão que se coloca é a quem cabe preparar essa mão de obra", diz Castelli. Para ele, embora as instituições de ensino tenham dificuldade em acompanhar as mudanças criadas com a velocidade das informações e as exigências crescentes dos viajantes, as empresas também têm falhado em seu papel de fomentar a profissão. "O que as empresas hoteleiras estão fazendo para manter a equipe? Pouco investimento e total falta de políticas de retenção de talentos", afirma.

"As escolas formam, mas falta experiência prática", rebate a empresária Chieko Aoki, fundadora e dirigente da cadeia Blue Tree. Segundo ela, os cursos superiores transmitem muita informação de alta qualidade, mas muitos alunos nunca tiveram a experiência de arrumar uma cama. "Tem que começar de baixo. As pessoas chegam aqui, saídas da universidade, querendo posições muito boas, mas não sabem como é o trabalho de uma camareira", diz Aoki.

Apesar do "gap" entre teoria e prática apontado pela empresária, há empregos em todos os níveis da cadeia produtiva do turismo, garante Camila Fernanda Barboza e Moraes, coordenadora da área de hotelaria e eventos do Senac São Paulo. O Senac oferece cursos desde camareiras e recepcionistas até gerentes, supervisores e coordenadores. "Além da técnica, proatividade e comprometimento, os profissionais da hotelaria desenvolvem capacidades de assertividade e trabalho em equipe que os tornam capazes de atuar em outras funções", define Camila.

O Senac iniciou a oferta, ano passado, de quatro cursos em gestão de hotéis em parceria com a Universidade de Cornell.

A associação com instituições estrangeiras tem sido buscada pela principais escolas de hotelaria. Desde 2006, a Anhembi Morumbi mantém parceria com o Glion Institute of Higher Education, em Clarens, na Suíça, pela qual seus alunos da graduação e pós-graduação em turismo podem obter uma dupla titulação, fazendo metade do curso no Brasil e metade na Suíça. "É um diferencial importante, não tanto pelo título, mas pelo conteúdo", diz Elizabeth Wada, diretora da Escola de Turismo e Hospitalidade da Anhembi Morumbi.
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