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9.19.2013

Divã corporativo: O que faço se estou enojado da vida corporativa?

..:: Por: Marco Tulio Zanini | Valor Online

..:: [Pergunta] ::..

Sou formado em administração e tenho dois MBAs na área de finanças. Sou carioca, mas trabalho em São Paulo, no setor de telecomunicações. Sempre sonhei em ser um executivo de uma grande empresa e ganhar muito dinheiro. Percebi, no entanto, que não gostaria de um cargo gerencial aqui, pois fiquei um pouco enojado da vida corporativa - com funcionários bajuladores sendo promovidos, colegas de trabalho queimando uns aos outros, entre outras coisas. Minhas prioridades mudaram após o nascimento do meu filho e estou confuso. Considero voltar ao Rio em busca de qualidade de vida, mesmo ganhando menos, mas não na mesma indústria. Tenho reservas para ficar dois anos sem trabalhar e queria arriscar uma mudança, mas tenho medo. Como resolver essa crise na minha carreira?

Analista, 36 anos

..:: [Resposta] ::..

Crises podem ser excelentes oportunidades para a mudança e, com o nascimento de um filho, geralmente nossos horizontes de transformam.

O sentimento de aversão aos aspectos da vida corporativa que comenta é muito comum em determinado momento da carreira (e até mesmo saudável) e pode estar relacionado ao seu momento de vida. O ambiente de trabalho é um campo de realizações e felicidade, mas também um campo de batalha onde experimentamos, na interação com os outros, todas as faces da vida humana: inveja, ganância, vaidade e injustiça. Quando repudiamos essa realidade temos a possibilidade de nos afastar desse ambiente, ainda que não fisicamente, e refletir sobre o nosso papel e a nossa missão pessoal.


Unido a esse momento que você esta passando, há o fato de ter trabalhado durante muito tempo em uma indústria com características bastante singulares. Essa foi, e ainda é, uma indústria turbulenta que transfere para dentro do ambiente de trabalho grande incerteza. Fruto do processo de privatização no setor ao final dos anos 1990, as novas empresas de telecomunicações conviveram, logo no início de suas operações, com grandes oportunidades de desenvolvimento e criaram uma musculatura comercial muito robusta.

Promoveram a juniorização de sua mão de obra com o emprego de pessoas muito jovens, e a demissão em massa dos profissionais mais antigos que vinham da carreira das antigas estatais. Um paradigma na época que se mostrou um grande equívoco: gestores associaram inovação com juventude. Acreditou-se na promoção da inovação e da modernização simplesmente com uma mão de obra mais jovem, movida por um ritmo de trabalho eletrizante.

Um lamentável equívoco. Isso somando a pressão pelo desenvolvimento de infraestrutura e novas tecnologias, e a conquista de mercados, deixo o ambiente de trabalho com um foco excessivo na tarefa e no curto prazo.

Passados os anos, certamente tivemos uma grande melhoria na oferta de serviços de telecomunicações no Brasil, porém ao custo de uma indústria que canibalizou a qualidade dos serviços pela dificuldade em promover a transição do foco comercial para o foco na qualidade, muito devido à guerra desenfreada e a redução de preços (não por acaso as empresas de telecomunicações são as que recebem o maior numero de reclamações na prestação de serviços), e ao custo de um ambiente de trabalho muito estressante que ainda hoje sofre com esse início turbulento.

No seu caso, como possui especialização em finanças, uma área não específica de uma indústria, existe a possibilidade de migrar para outra indústria com mais facilidade.

A mudança para o Rio em busca de qualidade de vida é outro fator a se considerar, mas neste momento não deveria ser o foco de suas escolhas. O Rio melhorou muito e trouxe novos investimentos, mas ainda é uma cidade com uma oferta de trabalho bem menor que São Paulo. O sentimento de mudança já existe em você, agora concretize isso com tranquilidade. A mudança traz incerteza, mas também muita esperança. Vá em frente!

Marco Tulio Zanini é professor e coordenador do mestrado executivo em gestão empresarial da Fundação Getulio Vargas e consultor da Symballein

Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

..:: As perguntas devem ser enviadas para: diva.executivo@valor.com.br
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