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5.01.2009

Banqueiros demitidos na crise carregam o estigma da corrupção

Por: Emma Jacobs (Tradução de Mario Zamarian), do Financial Times

Ben Waring (nome fictício) entrou em choque no dia em que foi informado que iria ser demitido. "Fiquei completamente paralisado", lembra ele. Enquanto limpava sua mesa no banco de investimento em que havia trabalhado por 15 anos, ele "ainda acreditava que aquilo estava acontecendo com outras pessoas."

Sinais de alerta já haviam ecoado, é claro: departamentos inteiros já haviam sido demitidos e a maioria dos clientes havia ido embora. Mas ele não queria acreditar na possibilidade de também perder o emprego. "Você enfia a cabeça em um buraco no chão e fica relacionando motivos pelos quais um colega seu deveria ir e você não."

Somente mais tarde ele caiu na realidade. Seu pacote de desligamento significava que ele não precisaria vender a residência em estilo vitoriano da família, ou se livrar do pônei da filha. Em vez disso, a parte mais difícil foi se dar conta de que o emprego era o propósito da sua vida. "Só se percebe isso quando você o perde."

Muitos profissionais que perderam o emprego estão descobrindo que a ferroada da demissão é sempre psicológica. "A maneira como as pessoas imaginam que vão reagir pode ser muito diferente da realidade", diz Brendan Burchell, um sociólogo da Universidade de Cambridge, que vem estudando o impacto do desemprego. "As pessoas sonham em ter mais tempo para o lazer, elas podem odiar seus colegas ou esperar conseguir um novo emprego. Mas, quando isso acontece, a demissão pode ser devastadora. As pessoas não percebem o quanto o trabalho é importante para suas identidades."

Quanto mais experiente a pessoa, maior é a sensação de deslocamento. Rachelle Canter, uma psicóloga de San Francisco que trabalha com executivos que atuam em conselhos de administração, diz: "Chegar a uma posição sênior, exige um alto grau de comprometimento, que consome boa parte do tempo dos executivos. Portanto, quando são demitidos há uma sensação quase inevitável de que eles se perderam."

Se um emprego envolveu muitos relacionamentos, a demissão pode significar a perda não só de uma estrutura diária, mas também de uma vida social. "Executivos de alto nível tendem a ser focados, decididos, altamente críticos quanto ao seu próprio desempenho e definem seu valor pelo trabalho", acrescenta Rachelle Canter. "Se você tira o emprego deles, a autoestima vai junto."

Belinda Walmsley da Joslin Rowe, uma consultoria de recrutamento na área de serviços financeiros no Reino Unido, tem observado esses problemas entre funcionários da City de Londres que perderam seus empregos. "Alguns estão muito confusos e embaraçados. Para muitas pessoas mais experientes, é a primeira vez que elas experimentam o fracasso, muito embora não seja um fracasso porque as demissões estão sendo generalizadas. Mas elas levam a demissão para o lado pessoal."

Uma suposição comum é que os homens sentem mais a perda de indentidade que as mulheres. Apesar da igualdade crescente no ambiente de trabalho, as mulheres ainda carregam a principal responsabilidade pela família e, desse modo, não tendem a se identificar tão fortemente com sua ocupação.

Para as mulheres do alto escalão, Canter sugere que perder o emprego pode fazê-las questionar os sacrifícios pessoais que fizeram para chegar ao topo. Isso porque tiveram que trabalhar com mais afinco e abrir mão de muitas coisas. Ela acrescenta: "Essas mulheres trocaram de papel com seus maridos e quando são demitidas podem, além de ficar muito sentidas, se criticarem por não terem passado mais tempo em casa."

O sentimento de vergonha pode ser debilitante, segundo o professor Binna Kandola, um psicólogo que trabalha com empresas. "As pessoas se escondem, evitam o contato olho no olho. Estes são sinais sociais muito poderosos que mostram que você está batendo em retirada."

Tal comportamento é mais comum entre os homens, segundo afirma Nicholas Rose, um terapeuta da clínica médica Haswell, Martin and Rose, no centro de Londres. "Ao contrário das mulheres, os homens têm uma probabilidade maior de sentir que devem lidar com a situação sozinhos."

Alden Cass, que presta consultoria a executivos de Wall Street que perderam os empregos, às vezes é procurado por mulheres que querem saber o que fazer para ajudar os maridos que ficaram retraídos e deprimidos depois da demissão. "Homens que foram demitidos sempre param de se comunicar com suas esposas", afirma.

Está é uma descrição bem familiar para Martin Shaw. Perder o emprego de gerente de contas de uma agência de marketing no ano passado foi um grande golpe em sua confiança. "Me senti por baixo, não queria sair muito de casa e não estava comendo bem. Me isolei de minha esposa e da família", lembra. Mas ele acabou buscando ajuda na Lifeworks, uma clínica particular de Londres que trata vícios e depressão.

Para os trabalhadores do setor financeiro, esta recessão apresenta dificuldades particulares por conta dos insultos direcionados aos banqueiros, afirma Mel Fugate, professor-assistente da Cox School of Business, da Southern Methodist University de Dallas. "Vimos isso no colapso da Enron e da Arthur Andersen, em que ex-funcionários tiveram que lidar com o estigma", diz ele.

O conselho dos especialistas é tratar o lado emocional da perda de um emprego com a mesma seriedade dos aspectos práticos. Não fazer isso, observa Canter, pode afetar sua capacidade de encontrar trabalho. "A raiva e a depressão sempre transparecem em entrevistas de emprego e podem afetar um passo bem sucedido na carreira."

Isso não significa necessariamente partir para uma terapia. Para Waring, foi importante encontrar outras pessoas na mesma posição: ele descobriu que ir até os escritórios da Penna, uma companhia de recolocação, ajudou. "Estabeleci uma rotina na ocasião e conheci pessoas muito interessantes lá- elas eram brilhantes- e isso ajudou minha autoestima."

Hoje, ele tem um novo emprego em outro banco. A demissão mudou sua atitude em relação ao trabalho? "Depois de perder meu último emprego, pensei que dali em diante iria priorizar minha saúde e minha família", diz ele. "Mas agora que estou de volta ao trabalho, provavelmente vou voltar a ser sugado."
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